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Série Querido Deus

Querido Deus #15

Querido Deus,

Têm sido dias difíceis. O Antônio me acusou de não me importar com ele, sendo que ele é (ou era, sei lá) meu melhor amigo e uma das pessoas com quem eu mais me importava. Isso me magoou muito. Acho que perdi um amigo, infelizmente.

Tô me sentindo uma merd@. Parece que tá tudo errado.

Minha esperança está falhando. Me desculpe Jesus, porque acho que fui eu que me trouxe até aqui.

Minhas certezas, de que servem?

“Lave o rosto nas águas sagradas da pia/ Nada como um dia após o outro dia” – Racionais, in Jesus Chorou.

Amém.

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Série Querido Deus

Querido Deus #14

Querido Deus,

Por favor, me ajude, pois não tenho noção do que fazer.

Tenho a sensação de que todas minhas esperanças se esvaíram, juntamente com meus amigos, e também com minha fé.

Eu não percebo mais o sentido da vida.

A única esperança que me restou é a de que um dia tudo vai passar; mas até lá, o que farei eu?

Amém.

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O pequeno Struggard #3

Struggard decidiu começar sua investigação indo até a mansão em que morava quando era apenas uma criança. O antigo imóvel em que habitou estava quase inteiramente destruído; o mato havia tomado conta da casa e a poeira cobria os objetos que ainda restavam ali. Havia quadros dos Struggard nas paredes e um piano na sala de estar. No que era seu antigo quarto, ainda tinham livros infantis na estante, em partes corroídos por traças. Entrou no quarto de seus pais, e se deparou com um pequeno retrato do sr. e da sra. Struggard com a pequena criança de apenas 1 ano de idade, no criado mudo de sua mãe. Ao lado da cama do pai, apenas papéis amarelados dentro de um envelope, com números e mais números inscritos.

Algo incomodava Struggard. Um sentimento de falta de esperança, misturada com a nostalgia. Ele sentia algo, algo que dizia que ele deveria seguir em frente por mais que fosse difícil – e impossível na visão de todos. Mas ele acreditava no que sentia, pois era genuíno e verdadeiro. Struggard chorou, deu meia volta e foi embora do lugar onde antes era seu lar.

Ao passar no local do acidente, na estrada que o levava de volta para a cidade, parou o carro e observou. Observou a mata densa, ouviu os cantos dos pássaros que ecoavam ao longe. Sozinho, completamente sozinho.

No dia seguinte, resolveu que era hora de visitar o antigo motorista, Wagner.

Wagner, um homem de porte forte nos tempos passados, se tornara um idoso com problemas de memória que morava no asilo de Cidagueeo. Não se lembrou de Struggard e quando este indagou a respeito do acidente, o senhor não sabia que acidente era aquele de que falava.

Struggard deixou flores amarelas no vaso ao lado da cama de Wagner, deu meia volta e foi embora.

Em um de seus espetáculos no teatro municipal, foi informado de que uma companhia de circo iria se apresentar na cidade na semana seguinte. Todos iriam ver a apresentação, inclusive Struggard.

No final da exibição, Struggard decidiu parabenizar o dono do circo. Entretanto, enquanto caminhava nos bastidores, viu um homem baixinho, razoavelmente calvo e gordinho. Ajudando esse homem a retirar sua maquiagem de palhaço, estava uma mulher alta e grande.

Struggard encontrou seus pais na mesma cidade onde os havia perdido, numa apresentação do circo Esperança, 25 anos depois de seus progenitores terem perdido a memória num fatídico acidente.

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O pequeno Struggard #2

A estrada que os levava para a cidade era curvilínea e estava escorregadia por conta da intensa garoa que caía do lado de fora… O pequeno Struggard observava seus pais ao longo do caminho, os pequenos diálogos. Observava também que o dia nublado fazia com que as densas árvores a beira da estrada ficassem escurecidas, o que dava uma sensação de medo ao pequeno. No entanto, os pequenos diálogos supracitados foram substituídos por gritos de desespero, seguidos por pífios ruídos. O motorista da família, Wagner, havia perdido o controle do carro naquela estrada molhada, e ele, juntamente com a família Struggard, haviam caído em um despenhadeiro.

No momento do acidente, já coberto pelo pior medo que cai sobre os seres humanos, a criança viu seus pais serem lançados para fora do automóvel – primeiro seu pai, depois sua mãe -, imagem que nunca sairia de sua memória. Pequeno Struggard tentou se segurar a algo mas a cena se encaixa na relatividade temporal que nos segue durante o percurso da vida. Num determinado momento da queda, desesperado e ferido, o pequeno desmaiou.

Acordou depois de alguns dias, no hospital de Cidagueeo. O prefeito da cidade estava ao seu lado. Questionou das dores, indagou onde estava, o que havia ocorrido e onde estavam seus pais. Foi informado que estavam mortos.

Não houve enterro para o Sr. e Sra. Struggard, pois seus corpos não haviam sido encontrados, após cansativos dias de busca.

Wagner sobreviveu, porém teve suas pernas amputadas e ficou sob cadeiras de rodas.

Sem outros parentes em nenhum lugar do mundo, o pequeno Struggard, após sua melhoria, foi encaminhado ao orfanato da cidadezinha. Era um lugar diferente daqueles orfanatos opressores – a diretora era a senhorita Rehicolb, uma mulher gentil, que não era nativa daquela cidade, mas havia se apaixonado por um analista em seu lugar de origem, e sido rejeitada. Então, em um acesso de paixão e tristeza, fugiu dos sentimentos. Encontrou em Cidagueeo o refúgio acolhedor de uma cidade em que pequenos acontecimentos fazem parte das grandes alegrias da vida adulta. Totalmente dedicada a sua profissão, a srta. Rehicolb esforçava para dar aos internos uma boa educação, lazer nas horas vagas e quando necessitavam, também confortava-os com historinhas ficcionais que formava na sua mente.

Assim, pode-se afirmar que o pequeno Struggard se sentiu acolhido por todos naquele novo lugar. Mas tudo é uma fase, e um dia o pequeno cresceu.

Ao completar 18 anos, Struggard teve total acesso a fortuna que seus pais haviam lhe deixado. Era um rapaz forte, de cabelos castanhos e olhos doces, calado, mas amoroso. Decidiu que queria aprender sobre artes e música, e acabou se interessando por canto.

Passou a morar numa casa azul com janelas brancas, e adotara uma cadela que atendia pelo nome de “Sorte”. Era vizinho da sra. Rumurel e da srta. Rehicolb. Ingressou no coral da cidade e se destacou por ter uma belíssima voz.

Um dia, ainda bastante jovem e aparecendo a oportunidade de cantar em grandes lugares para pessoas ditas socialmente importantes, Struggard, fechando sua casa e deixando Sorte sob os cuidados da sra. Rumurel, deixou Cidagueeo.

Depois de cinco anos vivendo longe, conhecendo os mais diversos lugares e culturas, regressou àquela pequena cidade. Encontrou a sra. Rumurel, que já havia deixado de dar aulas de piano devido a problemas auditivos adquiridos na velhice. Mesmo assim, Struggard contou a ela que havia voltado para encontrar seus pais. A senhora não acreditou e pensou até que a loucura havia entrado na mente do rapaz, mas Struggard sentia, com todo seu coração, que seus pais ainda estavam vivos.

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O pequeno Struggard #1

Era um dia nublado. A sra. Struggard entrou na limousine preta por uma porta, enquanto o sr. Struggard entrava pela outra. No meio dos dois, lá estava o pequeno Struggard; um menininho de 5 anos, gordinho, branco com bochechas rosadas, cabelo castanho que se encontrava crescido e ocultava um pouco da sua testa enquanto suas franjas laterais quase tocavam seus olhos. Era um garoto quieto, gostava muito de ouvir tudo ao seu redor e pensava diversas vezes antes de falar.

A sra. Struggard, uma mulher alta e grande vestia roupas escuras. Talvez marrom com preto e roxo fossem as cores para aquele dia. “Wagner, siga para o centro.”, disse ela assim que terminava de se acomodar. Naquele dia, tinham assuntos a serem resolvidos no centro de Cidagueeo, a cidade em que moravam.

Seu marido, o sr. Struggard, era um advogado baixinho, razoavelmente calvo, e gordinho. Formavam um casal excêntrico: moravam fora da urbanização da cidadezinha e não possuíam quaisquer parentes; e ninguém na cidade sabia desde quando eles estavam ali, só sabiam que um dia apareceram, antes mesmo do pequeno Struggard nascer.

A sra. Struggard financiava artistas na cidade. Era apaixonada por Cubismo e Surrealismo. Naquele dia, iria visitar o museu, que pretendia realizar uma nova exposição e ela fora convidada para fazer parte da curadoria por conta de sua influência.

O sr. Struggard trabalhava para bancos e ganhava muito dinheiro. Era reconhecidamente um dos melhores advogados na área. Era respeitado por todos, além de ser gentil e fora dos tribunais gostar de fazer as pessoas rirem.

O pequeno Struggard iria para sua primeira aula de piano. Depois de muito pensar, havia dito a mãe que gostaria de aprender a tocar algum instrumento. Ela entendeu que fosse do tipo clássico e matriculou-o nas aulas da sra. Rumurel, uma professora, uma professora solteirona da cidade que escondia por trás de seus cabelos descoloridos que lhe caíam sobre a face um doce olhar de ternura maternal. Era uma mulher um tanto quanto infeliz, pois desejava ser correspondida por seu amado, mas já tinha perdido suas esperanças.

No entanto, era um dia nublado aquele.

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Querido Deus #13

Querido Deus,

Hoje eu assisti uma pregação do reverendo Augustus Nicodemus sobre sofrimento dos fiéis. É uma pregação muito boa, baseada no salmo 88. Tem uma coisa que ele disse que me deixou pensativa: o salmista, no mais profundo sofrimento, fala pro Senhor “o que o Senhor vai ganhar se eu morrer? O Senhor só vai perder um pregador”; daí que eu pensei o que o Senhor vai perder se EU morrer. O que acontece? Parece que a vida é só sofrimento, o tempo todo.

Ajuda a Mariana na nova fase (universitária) dela.

E seu eu fosse viajante igual o pessoal da Expedição Raiz? Eles conhecem as maravilhas da natureza feitas pelo Senhor e conhecem pessoas, e as escutam. Eu queria poder fazer isso.

Meu Deus, como faz pra separar o joio do trigo? Parece tão difícil; tem muita gente ruim, mas tem tanta gente boa também…

Acho que vou começar a escrever contos… só preciso concretizar e ter ideias. Quem sabe dá certo né?

Continuamos em quarentena. Ajuda-nos Senhor, ajuda-nos.

Amém.

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Querido Deus #12

Querido Deus,

As coisas estão cada vez mais difíceis. Com o coronavírus obrigando todo mundo a ficar em casa, a economia parece que vai ruir e o ano escolar também. Teremos que tomar medidas. Quais? Eu não sei, mas teremos.

Minha espiritualidade está fraca. Me perdoa Jesus, por tudo que eu fiz contra o Senhor. Eu tenho errado constantemente, mas eu tenho vontade de parar.

Eu penso muita coisa. Sozinha eu sou minha inimiga íntima. Por que estou infeliz?

Parece que está tudo desabando sobre a minha cabeça e eu tô parada sem fazer nada. Nada.

Me ajuda.

Amém.

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Série Querido Deus

Querido Deus #11

Querido Deus,

Ah Jesus… A vida tá meio assim sabe? Sem sal. Eu tenho medo de viver as coisas, de falar com as pessoas. Eu tenho medo de errar e me magoar e me arrepender.

Constantemente eu me sinto sozinha. Sem meus amigos. A mulher dentro da saia tem poucos, raros amigos.

Eu estou totalmente desacreditada do amor. Sei lá, acho que nasci pra ficar sozinha mesmo. Com a solidão a gente se acostuma, mas e com os desejos (porque eles existem)? Concomitantemente, às vezes surge em mim uma vontade de ser mãe. De engravidar e ter um bebê. Onde já se viu isso, se eu tô desacreditada no amor e não vou casar nunca?!

Às vezes eu queria acordar com 60/70/80 anos, pra não ter que ver a vida passar. Às vezes eu queria voltar lá pros meus 17 anos, que foi uma época muito boa pra mim.

O mundo é muito ruim. Será que viver vale tanto a pena assim? Eu queria ser feliz. Eu tenho tudo pra ser feliz, e por que não o sou? Por que tem um vazio aqui dentro?

Eu sinto que perdi o Raul. Acho que eu amo ele. Como pode? Mas ele merece alguém melhor que eu; uma auxiliadora; uma mulher de Deus que apoie ele nos planos que ele tem. Eu quero muito que ele continue sendo feliz. Por que eu nunca consegui esquecê-lo?

Tem uma doença que tá alastrando o mundo. Uma pandemia. As pessoas só saem de casa quando necessário. Nos proteja Jesus, nos proteja.

Limpa os meus pensamentos e abençoa meus amigos.

Amém.

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Série Querido Deus

Querido Deus #10

Querido Deus,

Muita coisa vem acontecendo. Tá todo mundo louco por causa desse coronavírus. Muita gente tem pegado; as aulas estão suspensas; muita gente tem morrido. Ajuda-nos Senhor.

Meu Deus, eu acho que eu nunca vou casar, nem ter filhos. Não sei se é certo/errado pensar assim, mas é o que eu sinto no meu coração. Às vezes eu fico triste, mas fazer o que né? Me acostumar com a solidão.

Mesmo assim, eu penso no Raul. Ele precisa de uma auxiliadora. Mostra a pessoa certa, Jesus, pra ele.

Eu decidi fazer a transferência interna de curso na universidade no início do próximo ano. Vamos ver no que vai dar.

Me perdoa pelos meus pecados.

Amém.

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Poemas

Saudade

Eu achava que estava bem.

.

Eu realmente achava que estava bem,

Até você postar aquela foto

Que te resumia tão bem:

calmo, sereno, com olhos tão doces.

.

Bastou você postar aquela foto

Pra tudo voltar.

.

Eu sinto sua falta.