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Poemas

Também sou brasileira

Me deparei outro dia com o poema “Também já fui brasileiro”, do Carlos Drummond de Andrade, e que o queridíssimo Belchior transformou em música. Inspirada, escrevi minha própria versão do poema:

"Eu também sou brasileira
Triste como vocês.
Fui alfabetizada, tirei título
e aprendi nos jogos de futebol
que o patriotismo é uma virtude.
Mas há uma hora que os jogos são perdidos
e todas as virtudes, se existem, se negam.

Eu também já tentei ser poeta.
Bastava me apaixonar,
pensava logo no céu, nas estrelas, na lua e no mar
e outros substantivos do tipo.
Mas foram muitas paixões, muitos substantivos,
minha poesia cansou-se.

Eu também já tive minha razão.
Fazia isto, dizia aquilo.
E meus amigos me queriam,
e até meus inimigos me respeitavam.
Eu, ironicamente, me emocionava
satisfeita de ter minha razão.
Mas acabei confundindo tudo.
Hoje não me emociono mais não,
não sou irônica mais não,
não tenho razão mais não."

- Também sou brasileira - J. Ferreira, 2021.
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Um aniversário da infância

Lembrei desse episódio quando estava conversando com meu colega de faculdade, Lucas, sobre o aniversário dele na próxima semana. Logo, meu cérebro me trouxe a recordação do dia 18/04, no ano de 2005 ou 2006 (não tenho certeza). Só sei que eu ainda era criança, e ainda estava na pré-escola.

Nessa época, por algum motivo peculiar (mas especial), as crianças gostavam muito de ficar em primeiro lugar nas filas, quando a professora pedia para que fizéssemos uma. Mas, como eu disse, as crianças gostavam muito de ficar em primeiro lugar, e isso acabou virando uma disputa em que pequenos seres humanos realmente brigavam por isso.

Como uma forma de aliviar as tensões, a professora deixava que os aniversariante ficassem em 1º lugar na fila – um grande privilégio em um grande dia do ano.

Mas, não sei por que, naquele meu aniversário eu fui uma criança diferente. Primeiramente, eu não lembro dos meus pais me falando que aquele dia era meu aniversário, mas eu sabia que era.

Então, no início da aula na pré-escola, minha professora indagou os alunos: “Quem está fazendo aniversário hoje???”, olhando pra mim e aguardando uma reação. Mas eu não reagi, porque na minha mente eu só pensava “não… não é possível… dentre tantas crianças não pode ser que hoje seja o MEU aniversário.”.

Quando a professora revelou que era eu a pequena aniversariante, eu não soube como reagir. Não demonstrei uma alegria suprema ou algo do tipo.

No dia do meu aniversário, eu não sabia como enfrentar aquela data que não tinha muito significado pra mim… então eu simplesmente esqueci disso.

No dia do meu aniversário, eu não fui a primeira da fila.

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Do que se trata a vida?

Cinema e Gastronomia – Julie & Julia – Sobre o efeito transformador  existencial da culinária, sobre o amor. | Quando a Cozinha é um Divã
Cena do filme “Julie & Julia”. Dirigido por Nora Ephron, 2009.

Pois é, do que se trata? Acredito que há uma resposta correta, mas ela acaba se manifestando de maneira singular pra cada indivíduo.

Se você for ler meus posts dos últimos 3 anos, vai perceber algumas coisas mais bad vibes, apesar de que nesse mesmo tempo eu venho tentando convencer a mim mesma a abandonar o pessimismo. No entanto, tem sido sem sucesso por enquanto.

Queria dar um sentido pra minha vida, alguma coisa que me incentivasse a continuar acordando todos os dias sem pensar “não acredito que vou ter que viver mais um dia”. Queria um desafio, qualquer coisa que ocupasse minha mente com algo que não fosse a faculdade. Podia ser uma coisa boba, ou algo importante, mas que me ajudasse nem processo de abandono do niilismo existencial.

Ano passado eu tentei fazer um diário-oração, em que eu contava pra Deus sobre o que eu estava sentindo naquele dia, o que havia se passado etc. Disse pra mim que ia fazer isso todos os dias por no mínimo 3 meses. Sem sucesso. Alguns desses registros foram postados aqui, na Série Querido Deus (https://aventurasdepoeta.wordpress.com/category/serie-querido-deus/).

Então, pensei em me desafiar tipo a Julie do filme “Julie & Julia”, que postava todo dia em um blog suas experiências na cozinha, realizando os pratos da Julia Child. É um bom filme, e eu queria ter a mesma sensação dela, e a mesma persistência.

Quem sabe a vida seja uma série de desafios que nos propomos a encarar e vencer.

Esse é o post de hoje. Talvez o meu desafio seja voltar amanhã e escrever algo diferente. Talvez… talvez…

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Autocrítica

Engraçado como as coisas acontecem.

Quando eu tinha 17 anos, observava que a vida era nada mais que tomar as atitudes corretas perante as situações que enfrentamos. E pra mim, que era extremamente orgulhosa da minha suposta racionalidade adquirida durante a adolescência, era o que fazia sentido. Eu só tomava ações certas quando estava em difíceis situações; e quando não acontecia (o que era muito raro na vida da Jaque de 17 anos), lá estava eu para admitir meu erro – o que era o certo, afinal de contas.

Quando eu tinha 17 anos, também assumi que, fosse a situação que fosse, jamais iria me surpreender com os erros dos seres humanos (me incluindo aqui), porque, presos em suas próprias vaidades, nada restava a eles a não ser errar. É o fardo que o Homem carrega – ter vaidade e falhar na vida. A solução era única: se livrar de si mesmo e decidir tomar atitudes corretas.

Ademais, quando eu tinha 17 anos, era uma aluna brilhante, com ótimas notas e todo o resto que isso envolve. Tinha meus amigos perto de mim, e era o que eu queria ser. Pode-se dizer que a Jaque de 17 anos era completa e enxergava a vida com uma clareza sem tamanho.

No entanto, a Jaque de 17 anos morreu. Obviamente, outra veio ocupar seu lugar – esta última só carregava a lembrança da primeira, algo como uma saudade brega de toda certeza que um dia teve.

Quando eu fiz 18 anos, me senti a pessoa mais sozinha do mundo. Não que eu não tivesse amigos, mas depois dos 17 cada um segue o seu rumo, e tudo bem, mas o fato de não poder compartilhar minhas dores com outra pessoa na mesma situação de maneira próxima me feriu demasiadamente.

Então, quando eu tinha 18 anos, tive contato com algumas visões de vida que abalaram todas as certezas que eu ainda carregava. A primeira, pode-se dizer que era a resignação perante a vida e TODOS seus aspectos. Caramba, eu só tinha 18 anos, não precisava me conformar tão facilmente com tudo… mas aconteceu e eu desisti de qualquer forma de mudança que eu poderia exigir de mim ou dos outros.

O segundo ponto de vista – talvez relacionado com o primeiro, como uma consequência – é o niilismo existencial. E como isso foi ruim pra mim. Alimentei meus pensamentos com literatura niilista e caí na mais profunda falta de esperança.

Depois dos 18, não consegui mais ter outro tipo de pensamento a não ser que estamos – todos, e também estou inclusa – fadados ao fracasso humano de sermos nós mesmos. Egoístas, vaidosos e ridículos, com muitos “lutando” por utopias que jamais se realizarão. E como eu odeio pensar nisso. E como eu me odeio por não saber mais o que fazer com a vida – a não ser gastar o tempo que me resta com as bobagens da vida acadêmica; escrevendo de vez em quando para não enlouquecer (como diz o Bukowski S2); e lendo/ouvindo algumas coisas legais pra me sentir menos solitária (além do Buk, eu ando curtindo o Pessoa e o Belchior ultimamente. E o livro Claro Enigma, do Carlos Drummond de Andrade, cujos poemas ficam ecoando constantemente na minha cabeça). Mesmo assim, fico perplexa em perceber como nada mais me agrada e tudo me entedia.

Escrevi esse texto porque pensei nisso quando acordei hoje, em como a Jaque do passado não era perfeita pra eu sentir tanta falta dela (sim, eu sentia falta dos meus 17 anos); e em como eu me tornei extremamente pessimista. Pois é. Bem ruim, eu sei. Bem ruim.

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Escrevendo… escrevendo…

Bom, ultimamente eu ando empolgada e ao mesmo tempo ansiosa. A ansiedade vem pelo fato de que minhas aulas iniciarão na próxima semana, e eu já estou estressada só em pensar nisso. Decidi aprender francês nesse semestre, o que é bom, porque eu sinto que fazia tempo que não me dedicava a algo novo.

A empolgação vem do fato de que daqui 7 dias será meu aniversário de 21 anos. Esse ano eu dispensei o pensamento de que envelhecimento é uma coisa que nos aproxima da morte – ideia que me dominou no mesmo período do ano passado.

Apesar de tudo, sinto que estou mais adepta às mudanças e, principalmente, com mais vontade de conversar com as pessoas – algo surpreendente, visto que nos últimos anos me tornei cada vez mais antissocial.

Enfim, senti vontade de escrever algo aqui porque adoro ler o que as outras pessoas estão escrevendo por aí, despretensiosamente.

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Querido Deus #22

Querido Deus,

Hoje foi um dia bom. Fiquei com a mente ocupada todo o dia – isso é muito bom, evita que eu pense besteiras. Limpa meus pensamentos, Jesus.

Tenho pensado em voltar a acompanhar futebol.

Hoje, sou grata por ter conseguido fazer as tarefas da semana conforme o planejado; pelas conversas com meu sobrinho Carlos; e por ter ficado menos ansiosa hoje.

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Querido Deus #21

Querido Deus,

Hoje foi pior que ontem – estou totalmente desanimada. Totalmente. Estou me sentindo um lixo que anda e fala.

Apesar de saber que o ser humano sofre por causa do pecado, eu não quero viver em um mundo terrível como este. Tanta sabedoria humana acumulada, mas ninguém realmente se importa com o próximo (generalizei. Há pessoas que se importam de verdade).

Peço que me dê força para suportar e sabedoria para agir corretamente.

Peço também que na hora da minha morte, ali nos instantes finais, haja uma boa mão humana para segurar a minha.

Amém

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Querido Deus #20

Querido Deus,

Hoje foi um dia até que bom. Estou com planos: fazer uma lista com 30 coisas para fazer antes dos 30. Acho que será um desafio legal.

Jesus, abençoa a Flávia Calina. Ela é muito legal, de uma maneira genuína.

Toma conta do país, estamos todos precisando. E olha pelos refugiados também.

Amém.

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Querido Deus #18

Querido Deus,

Me sinto apaixonada. Não sei pelo quê direito, mas me sinto apaixonada. Acho que é pela palavra. Cada vez mais eu dou valor à Língua Portuguesa, sobretudo ao português brasileiro. É lindíssimo.

Hoje eu tô de bem com a vida. Hoje. Tenho meus dias.

O mundo não vale a pena meu bem, mas a vida vale a pena ser vivida. É complexo mas verdadeiro.

Obrigada Jesus. Pelos meus amigos. Pelo amor. Pela palavra.

Cantiga de enganar – Carlos Drummond de Andrade
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Querido Deus #17

Querido Deus,

A novidade é que eu voltei a falar com o Antônio – expliquei pra ele o porquê estava magoada e ele se desculpou. Desculpei ele e pedi perdão também. Estamos bem de novo.

Tem sido tempos difíceis. Há racismo. Há ameaças de fascismo. Há pessoas lutando por liberdade. O Senhor deve estar magoado com o ser humano faz um tempo né? Conseguimos destruir todo esse mundo perfeito que o Senhor nos deu por causa da nossa vaidade; e criamos a fome, a desigualdade social, somos corruptos. Somos vaidosos. E para quê? Só para alimentar nosso ego terrível. Por favor Jesus, tire de mim a vaidade que me afasta dos Teus planos. Me dê força para lutar contra o que é ruim.

Graças a Deus eu tenho minha família e amigos – poucos porém suficientes e verdadeiros. Obrigada.

Obrigada por eu ter o que vestir, o que comer, onde repousar minha cabeça e esse papel e essa caneta. Obrigada pela vida.

As aulas voltaram (de maneira online), e eu estou bem cansada pra ser sincera. Mas vou seguindo no meu planejamento.

Eu penso muito sobre a vida, sobre ela ser essa sucessão de fatos doces e amargos, aleatórios. Sobre haver um futuro e ele ser uma astronave que tentamos pilotar.

Afora isso, tenho em mim todos os sentimentos, e pensamentos, do mundo.