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Também sou brasileira

Me deparei outro dia com o poema “Também já fui brasileiro”, do Carlos Drummond de Andrade, e que o queridíssimo Belchior transformou em música. Inspirada, escrevi minha própria versão do poema:

"Eu também sou brasileira
Triste como vocês.
Fui alfabetizada, tirei título
e aprendi nos jogos de futebol
que o patriotismo é uma virtude.
Mas há uma hora que os jogos são perdidos
e todas as virtudes, se existem, se negam.

Eu também já tentei ser poeta.
Bastava me apaixonar,
pensava logo no céu, nas estrelas, na lua e no mar
e outros substantivos do tipo.
Mas foram muitas paixões, muitos substantivos,
minha poesia cansou-se.

Eu também já tive minha razão.
Fazia isto, dizia aquilo.
E meus amigos me queriam,
e até meus inimigos me respeitavam.
Eu, ironicamente, me emocionava
satisfeita de ter minha razão.
Mas acabei confundindo tudo.
Hoje não me emociono mais não,
não sou irônica mais não,
não tenho razão mais não."

- Também sou brasileira - J. Ferreira, 2021.
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Domingo – Eu, Gilbert e Leminski

Certo.

Uma vez eu estava assistindo “Gilbert Grape: Aprendiz de sonhador”, um dos meus filmes favoritos, e em uma cena a Becky pergunta pro Gilbert “O que você quer pra você?”. Ele hesita, mas responde “Eu quero ser uma pessoa boa.”

Eu também Gilbert, eu também. Ao mesmo tempo, sinto que necessito descobrir quem eu sou, porque sei que em algum lugar do tempo/espaço, eu me perdi, e estou tentando achar o caminho de volta.

Eu tenho estado triste pelas minhas últimas atitudes aqui no mundo. É como se eu não estivesse sendo o que gostaria, e nem me esforçando para tal.

Bom, hoje eu estava a fim de ler um poema, e encontrei um do Paulo Leminski bom:

tenho andado fraco

levanto a mão
é uma mão de macaco

tenho andado só
lembrando que sou pó

tenho andado tanto
diabo querendo ser santo

tenho andado cheio
o copo pelo meio

tenho andado sem pai

yo no creo en caminos
pero que los hay
                hay

Me identifiquei com esse.

Então, somos eu, o Gilbert e o Leminski nesse domingo.

Espero que você, leitor, esteja bem nesses tempos sombrios.

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Poemas

Recuperação

para Manuel Bandeira


Caderno, lápis, computador e preocupações noturnas.
O semestre inteiro que podia ter sido e que não foi.
Tédio, tédio, tédio.

Mandou um e-mail para o professor:

- Aceitarei até as 23h59.
- 21h... 22h... 23h...
- Vou corrigir.

....................................................................

- O senhor não entregou um trabalho e a prova não foi suficiente.
- Então, professor, não é possível tentar a recuperação?
- Não. A única coisa a fazer é ouvir a melodia musical brasileira.
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Poemas

Toda vez

Toda vez que você posta uma foto
Meu celular me notifica
E eu fico alguns segundos encarando a notificação
Tentando decidir o que fazer.

Se eu ver sua foto, eu sofro.
Mas se eu não ver, também.

Toda vez que você posta uma foto
Eu fico vendo teus olhos, como
se eu pudesse ler o que dizem.
São olhos doces.
E decididos.

Toda vez que você posta uma foto
Eu lamento não ter sido eu
Quem a tirou.
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Situação crítica (para Mário Quintana)

Têm vezes que eu me sinto sufocada
Pelas responsabilidades
Pensamentos
Sentimentos
Dúvidas

Então, eu abro uma janela,
Respiro bem fundo
E olho o horizonte
De um lado
Para
Outro

Da janela
Da respiração
Me sinto mais livre
E por vezes chego até ao ponto
De me comparar
A um pássaro que some
Lá naquela linha horizontal
Refletido pela luz do sol
Quase encostando na água salgada do mar.

Quando me sinto sufocada na vida,
Eu abro uma janela,
Eu leio um poema.

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Saudade

Eu achava que estava bem.

.

Eu realmente achava que estava bem,

Até você postar aquela foto

Que te resumia tão bem:

calmo, sereno, com olhos tão doces.

.

Bastou você postar aquela foto

Pra tudo voltar.

.

Eu sinto sua falta.